E se o universo for mantido por um Agbê que, incessante, vai do céu à terra, do Ọ̀run ao Àiyé?

Por Marconi Bispo*

Ateliês estão sempre em gestação. Estão engravidados de sons. Gestam, fazem barrigas, têm contrações, esperas, enjoos, sossegos e partes de corpos em formação que saltam no abdômen-artesão. Flertam com o caos, com a desordem, com rascunhos, rabiscos... E riscos. Tudo em nome do bebê que está para nascer: Atabaques, Pandeiros, Tan-Tans, Agbês. Tem gestante aqui que já nos disse: “é só cinco crianças por mês”. Para outros e outras parturientes podem ser mais crianças a nascer, mas tudo alinhavado com um tempo que talvez desafie a noção temporal lá de fora.

Ser um artesão e uma artesã de instrumentos percussivos pode ser uma grande contravenção nos dias atuais. Um silencioso grito contra a vida dos e nos aplicativos. Gestar uma Alfaia, uma Zabumba, um Berimbau, com maestria e atenção aos detalhes, pode estar sendo uma rebeldia.

Aqui no Ẹbu Lùlù – ateliês percussivos resolvemos mostrar doze rebeldes. Uma dúzia de profissionais que, talvez, não atendam pressas e imediatismos de quem acha que tudo é clique, corre, pressão, chilique. A gente te convida para uma viagem por pessoas e ambientes que, embora sejam pais e mães de sons, fabricam silêncios. Este é um site de fotografias de ateliês por dentro. Logo, artesãos e artesãs também por dentro.

Significantes e Significados

Da língua Yorùbá, encontramos o nome do projeto. Ẹbu, nessa língua que também é nossa língua, é local para realizar práticas diversas  por exemplo, confecção de peças de cerâmica, extração de óleo do azeite, fazer pinturas. é tocar, bater tambor ou qualquer outro instrumento de onde vem a palavra Ìlù ou Elù, tambores que usamos nos terreiros de Candomblé. Lùlù reforça o verbo, nos ancorando ainda mais nos arabescos dessa língua tonal onde sons significantes e significados alteram nomes das coisas, ampliam as palavras nas suas alturas possíveis, de boca a ouvido. Experimente dizer agora Ẹbu Lùlù. É sonoro, é prazeroso. Som percutido na boca, ritmo, brincadeira. Dizer Ẹbu Lùlù é gostoso. Andamos de mãos dadas com o prazer, nesse dizer.

Adentramos as oficinas de duas artesãs e dez artesãos. Diane Agbês, Flávia Foguinho, Abílio Sobral, Biano Pajeú, Chico Nunes, Cristiano Castanho, Charles Lemos, Iran Silva, Heverton Lima [Bolinho], Mestre Jó Percussivo, Mano Black e o Mestre Mau – Maureliano Ribeiro, que nos deixou ano passado e agora tem sua oficina montada no céu, de objetos invisíveis, mas sempre sonoros – e se todos os/as percussionistas que morreram forem os/as responsáveis pelos trovões e a gente não sabe? Se fazem parte da orquestra de Oyá e Ṣàngó [Xangô] e a gente não sabe?

O projeto Ateliês Percussivos realizou pesquisa fotográfica com estes mestres e mestras que produzem instrumentos percussivos largamente utilizados nas manifestações culturais populares e tradicionais de Pernambuco. Em Yorùbá, artesão/artesã é ỌLỌ́NÁ. Dividindo a palavra: ỌLỌ́ expressa a ideia de alguém que tem poder, posse e conhecimento sobre algo. Ọ̀NÀ, escrita assim, é rua, caminho, estrada, acesso, indicação; também método, maneira, forma de se fazer algo. Mas ỌNÀ [atente à diferença na forma de escrever que tem sim a ver com a forma de dizer] é Arte, Obra de Arte. Como a gente fala em Pernambuco: os dois caminhos vão dar na “venda” [“venda”, pra nós, é mercearia, o boteco, lugar de fazer compra de todo dia]. Artesãos e artesãs, então, são senhores e senhoras que criam obras de arte. Mas também podemos defini-los e defini-las como pessoas que têm em suas mãos métodos e formas de fazer algo. Esses métodos e formas de fazer algo nos dão caminhos, são lugares de acesso, ruas que pavimentam sons, estradas silenciosas que vão dar nas sonoridades que constroem um povo. Como aqui se vê. Como ali se ouve. Nos maracatus, no forró, na orquestra de frevo, na roda de samba, na capoeira, no coco, inúmeras brincadeiras. ỌLỌ́NÁ, homens e mulheres que criam obras de arte. Obras estas que talvez sejam os caminhos mais antigos do mundo.

Das doze personalidades enfocadas, temos gente de 88 anos, gente de bem menos; temos muita gente da Zona Norte Recifense, gente que semeia cabaças, gente que as veste; temos gente com filhas-zabumbas rodando o mundo, gente que cria o que ainda não foi criado, basta uma ideia, um desejo, um lampejo. Temos doze pessoas muito diferentes. Todavia, uma coisa é comum: os instrumentos produzidos são seus próprios corpos que passam a se movimentar no corpo de outra pessoa, amplificando esse nosso destino comunitário, coletivo. Um deles nos alerta: “sou parte integrante dos tambores. Eles e eu não estamos divididos, formamos um só corpo”. Muitos e muitas disseram que começaram a criar instrumentos para satisfazer seus próprios desejos de um som melhor, percussionistas e musicistas que são.

Esta pode ser uma importante questão: porque Som é Movimento. Não existe nada que não esteja em Movimento. E Olódùmarè, na sua dança de criação, fez surgir a primeira matéria organizada do Universo, Èṣù Yangi, pedra que balança e determina incontáveis mundos. Somos partículas-Yangi, somos partes de Olódùmarè, divindade suprema Yorùbá que cria tudo e todas, todos, todes.

E se o universo for mantido por um Agbê que, incessante, vai do céu à terra, do Ọ̀run ao Àiyé? Se Olódùmarè for um pandeirista que criou os planetas à imagem e semelhança de um pandeiro? Tudo bem, é uma viagem nossa. É para esta viagem que a gente quer convidar você.

Sejam bem-vindas, bem-vindes e bem-vindos!

*Marconi Bispo foi consultor do projeto Ẹbu Lùlù. É mestrando no Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos na Pós-Afro, do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia. É artista cênico e um sacerdote iniciado para Ìyémọjá, Ọrúnmìlà Bàbá Ifá e com ramificações na Jurema Sagrada.

Abílio Sobral fala sobre trajetória, movimentos culturais, instrumentos e ateliês.

Créditos

Diane Gonçalo
Flávia Foguinho
Abílio Sobral
Biano Pajeú
Heverton Bolinho
Charles Lemos
Chico Nunes
Cristiano Castanho
Iran Silva
Jó Percussivo
Mano Black
Maureliano Ribeiro
Artesãs e Artesãos

Hassan Santos
Fotógrafo e Pesquisador

Abílio Sobral
Mestre Artesão Convidado

Dominique Berthé
Fotógrafa Orientadora e Curadora

Marconi Bispo
Consultoria e Texto

Lúcia Padilha
Produção, Gerente de Dados e Acessibilidade

Chico Ludermir
Comunicação

Vinícius Andrade
Revisão de Texto e Vídeo

Itapulab
Webdesign

Mayara Menezes
Contabilidade

Suzana Valquíria
Givaldo José dos Santos - Reppolho
Filipi Gondim
Agradecimentos